‘Não queremos fugir da guerra’: funcionários criticam falta de EPIs no Hospital das Clínicas

“Não queremos fugir da guerra, mas nos mandem pra ela preparados”. A declaração é de uma funcionária do Hospital Universitário Professor Edgard Santos (Hupes), conhecido como Hospital das Clinicas, e vinculado à Universidade Federal da Bahia (Ufba). Ainda no mês de março, 80 leitos foram disponibilizados pela direção do hospital, para tratamento de pessoas infectadas pelo novo coronavírus. Segundo os funcionários, no entanto, a unidade não tem condições de receber os pacientes.  

“O hospital não se preparou para atender os pacientes de covid-19, não por questões financeiras, não está faltando recursos, são questões de gestão. O hospital está à deriva, não estava funcionando bem antes, como vai abrir uma enfermaria para atender casos de coronavírus?”, questiona outro membro da equipe de saúde, que também preferiu não ser identificado. 

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Segundo os relatos, o hospital não tem equipamentos de proteção adequados para os funcionários e falta também treinamento à equipe para procedimentos específicos relativos à covid-19. “Por ser um hospital público, já tem uma dificuldade de insumos, como máscaras, luvas, esses equipamentos de proteção. Foram adquiridas umas capas plásticas, que não protegem, partes do corpo ficam expostas, não tem como tirar sem se contaminar”, diz a funcionária.

Capas protetoras deixam corpos por funcionários expostos (Foto: Acervo Pessoal)

Outra queixa dos funcionários diz respeito ao fluxo de tratamento dado a pacientes com covid-19 que já se encontram internados na unidade. Segundo eles, foi separada uma enfermaria para os casos da nova doença, o que, contudo, não seria eficiente. “A enfermaria fica do lado oposto à UTI, se for necessário transferir esses pacientes, é preciso descer de elevador, atravessar o corredor principal do hospital e subir novamente. São pelo menos cinco áreas contaminadas”, diz um membro do hospital. 

Segundo alguns integrantes da equipe, inicialmente, os dois pacientes em tratamento contra a covid-19 chegaram a dividir quarto com outros internados, expondo equipe e outros doentes a riscos. A equipe que teve contato com estes pacientes, inclusive, não teria sido testada  porque faltam testes rápidos para o coronavírus na unidade. 

“Somos um hospital de referência para pacientes crônicos e que têm a imunidade rebaixada. Não temos a estrutura de receber pacientes com coronavírus, e isso expõe os outros pacientes, que são de grupo de risco”, explica uma das funcionárias. 

Pedido
Segundo os dois funcionários com quem o CORREIO conversou, uma carta assinada por membros da equipe da unidade teria sido entregue solicitando que o hospital funcionasse como uma unidade de apoio para outros casos e não recebesse vítimas da pandemia. 

“Por se tratar de uma unidade de referência de pacientes graves na Bahia com doenças em grande parte imunossupressoras e de alto risco à covid-19 (oncológicos, transplante de medula óssea, hematologia, idosos, cardiopatas, hepatopatas, HIV, nefropatas, pneumopatas, etc), entendemos que o Hupes não tem estrutura segura para seus pacientes e funcionários para ser referência na rede e receber fluxo de pacientes com suspeita ou diagnóstico de infecção pelo coronavírus, podendo disseminar dentro do Hupes uma grave epidemia com mortalidade muito mais alta que a média esperada na população geral”, diz trecho do documento.

“Nosso hospital tem uma estrutura muito antiga e inadequada para proteção da equipe de saúde e dos enfermos; sistema de ar condicionado desatualizado com quebras constantes, quantidade insuficiente para Covid-19 de quartos de isolamento em unidades de terapia intensiva, falta de equipamentos de proteção individual em quantidades suficientes nem para começar a batalha, falta de equipamentos de apoio diagnóstico e terapêutico adequados ao enfrentamento, falta de pessoal treinado (nos fluxos para lidar com COVID-19, que são todos novos)”, completa o documento ao qual o CORREIO teve acesso. 

Procurada a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), responsável por administrar a unidade, informou que o Hospital das Clínicas “ainda não tem conhecimento de documento dos funcionários relatando problemas. Entretanto, se coloca à disposição para esclarecer as ações que vêm sendo tomadas pela unidade visando resguardar pacientes e colaboradores”.

Acrescentou ainda que a undiade de saúde “segue à risca o protocolo de utilização de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) para toda equipe médica e assistencial e não há falta desses itens na unidade no momento. Além disso, a unidade está empenhada em aperfeiçoar processos e em adquirir mais EPI’s no mercado”.

Ainda de acordo com a nota enviada ao CORREIO, os pacientes internados no Hospital das Clínicas que apresentem sintomas sugestivos de covid-19 “também seguem rigoroso protocolo de isolamento e encaminhamento para os locais de referência na doença e ficam em uma enfermaria exclusiva e isolada”.

Por fim, acrescenta que “a Rede Ebserh recebeu recentemente crédito extraordinário de R$ 274 milhões para custeio de itens e equipamentos visando o combate à Covid-19. Esses recursos já estão sendo repassados conforme a demanda de cada unidade. Além disso, um processo seletivo emergencial vai contratar até 6.381 especialistas para toda Rede Ebserh visando atuar em duas frentes: ter novos profissionais no combate à doença e repor eventuais afastamentos”.

*Com orientação da subeditora Clarissa Pacheco
 

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