Sai pra lá, seu monstro! Deixa o Bentinho dormir em paz!

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Às vezes, nossa vida mais parece pesadelo. A sensação de ver tudo acontecendo e você simplesmente não conseguir distinguir entre realidade e ficção é uma experiência no mínimo desagradável. Tira o fôlego. Desestabiliza a nossa sanidade. Prejudica a capacidade de julgamento. Evoca reações animalescas naquele momento que teoricamente deveria ser uma ode ao descanso. Dormir deveria ser um evento leve. Mas nem sempre é. Nosso corpo carrega silenciosamente tudo aquilo que captura do ambiente. Não tem jeito, é involuntário. Inconsciente. Ele é vulnerável aos humores e desamores da nossa caminhada. Uma esponja de emoções. Nossos ouvidos nos traem toda vez que permitem que o barulho externo codifique uma mensagem larápia de nossa harmonia. E na hora que a máquina corporal se permite entrar em modo de descanso, uma guerra interna se inicia em nossa mente. Pesadelos, quem nunca teve?

Nessa semana tivemos um episódio de pesadelo com Bento. Nosso garoto tem meros 3 anos e uma imaginação que não cabe em seu corpinho. Fico observando a fertilidade dos pensamentos e a forma como as imagens e as histórias se organizam em seu raciocínio. Ele é sagaz nas ideias. Sempre atento a tudo ao redor. Consegue associar os acontecimentos do dia com alguma nova aventura criada num universo fantástico que é só dele. Por um lado essa capacidade é muito positiva para o contexto de isolamento e restrição do ir e vir em seu cotidiano. Ao mesmo tempo, tantas ideias pulsantes sem permissão para extravasar em corridas pelo parque ou mergulhos no mar são um perigo iminente para nossas noites.

Todas as suas aventuras enclausuradas não acabam quando ele dorme. Pelo contrário, eu imagino que elas devem ganhar superpoderes quando os olhos se fecham e ele é tele-transportado para a dimensão dos sonhos. Tudo ganha mais vida. Os bonecos. Os temores. As alegrias. E os ataques de ira. Parece que posso vê-lo neste mundo incrível dos sonhos. Correndo mais que todos os seus super heróis. Cheio de caras e bocas. Sempre muito corajoso. Claro que toda esta intrepidez dura até que algo ameaçador coloque medo em seu coração. O sonho se transforma em um cruel pesadelo que rompe a fronteira do sono e, aos gritos, o pequenino rompe o silêncio das madrugadas.

– Mamãe, mamãe. Papai, papai!

– E lá vamos nós socorrer quantas vezes forem necessárias.

Eu também sempre fui muito sonhador. Em todos os aspectos. Por vezes, perdi a passada da vida por me apegar tanto aos sonhos enquanto estava acordado. Sonhava e não agia. Isso acabou provocando em mim uma postura sempre acelerada. Eu não quero perder as oportunidades que sempre soam de forma tão reais – e possíveis – no mundo dos sonhos. Com o tempo fui compreendendo um pouco mais sobre este mundo e, ainda mais, sobre a importância de viver a realidade. Sonhos gostosos são sempre bem vindos. Mas quando nossa mente é invadida durante o sono por pesadelos, a experiência é amarga.

Já tive alguns pesadelos terríveis. Daqueles que parece que você está com os olhos abertos, vendo e sentindo tudo ao seu redor. É uma agonia sem fim. Você não consegue mover sequer um dedo. Quer gritar. Pedir ajuda. E nada. Você continua ali, grudado na cama. Imóvel e incapaz. Consegue sentir algo pesado no ambiente. O batimento acelera. A mente está trabalhando. Mas o corpo está impedido pela barreira do sonho. Internamente você se debate. Luta com afinco até que de repente, um grito intenso, e a esposa acorda desesperada. A casa inteira vai ao seu encontro pra entender o que houve. Mas ninguém jamais consegue compreender por mais que você tente explicar.

Pesadelos são passageiros. Mas duram tempo suficiente para deixar marcas na alma. Sabe qual a pior parte de um pesadelo? É que temos que passar por ele sozinhos. Só você e seus temores. Fantasmas pessoais. Os traumas mais profundos. As experiências mais dolorosas. Por mais que qualquer pessoa converse contigo, pesadelos levam para um lugar perigoso: a solidão. Você pode estar dormindo numa casa cheia de gente amada, ao lado do amor de sua vida. Não interessa. O pesadelo te sequestra por minutos para um lugar de prova. É ali que você irá aprender a enfrentar tudo aquilo que é necessário enfrentar. Não adianta temer a hora do sono. Descanse com coragem. Os efeitos colaterais de algumas noites de pesadelo precisam ser uma versão fortalecida de você mesmo.
Como disse, Bento teve um pesadelo essa semana. Por volta de 2h30 da madrugada ele começou a chorar ainda dormindo e gritava:

– Não, não, ‘colonavílus’! Não, não, ‘colonavílus’!

No dia seguinte decidimos reduzir esse assunto nas conversas à mesa do café, almoço e jantar.

Percebi que tudo de ruim que acontecia no dia do Bento era culpa do coronavírus.

Fomos caminhar no bairro e passamos em frente à escola:

 – Ah papai, que pena que não posso ir pra minha escolinha, né?

– É, meu filho, não pode por enquanto. Mas logo as aulas vão voltar.

  – Ah, entendi papai. É culpa do ‘colonavílus’, né? Ele é muito mal. Muito ‘peligoso’!

É de rasgar o coração. Mas esse pesadelo vai passar. A grande questão neste momento é saber distinguir entre realidade e pesadelo. É tanto acontecimento absurdo que jamais imaginaríamos que poderia ocorrer que tudo isso gera em nós uma baita confusão.

Às vezes, nossa vida vira um pesadelo. É como um ferida aberta e dolorida nos afetando enquanto estamos de olhos bem abertos. Tem pesadelos nada mais são do que fruto dos comportamentos. Colhemos tudo que plantamos na vida. É a lei da semeadura. Justa e cruel. Implacável. Nós enfiamos os pés pelas mãos quando nos permitimos ser dominados pelas vaidades, levados pelo orgulho e influenciados pela ganância. Não conseguiremos colher bons frutos se não aprendermos a selecionar as sementes. A vida tem tudo pra ser um sonho real. Acredite. Mas isso não será possível se insistirmos em viver um caminho tenebroso. Nosso destino fatalmente será a solidão do isolamento de um pesadelo. A vida vai ensinar tudo a todos. Talvez você esteja vivendo uma vida que realmente mais parece um pesadelo. Não é hora de buscar culpados. Encare a realidade. Seja valente. Enfrente as consequências dos seus erros. Assuma seus temores. Um pesadelo real ou no mundo dos sonhos não irá durar uma vida inteira. Chega uma hora que o grito da salvação rompe a barreira do sofrimento e você tá livre. Persevere.

Meu filho teve um pesadelo. Todos nós estamos vivendo um com essa covid-19. Mas, cá entre nós, quem aqui já não tem lutado contra seus próprios pesadelos antes de tudo isso acontecer? Eu enxergo este tempo como um tempo de aprendizado pra todos nós. Se sua vida vem sendo uma sequência de pesadelos, use a circunstância para rever a trajetória e encarar novos destinos. Desejo a você noites bem dormidas. Paz na alma. Coragem no olhar. Humildade no coração. E joelhos fortes para resistir a toda pressão que a vida real exerce sobre quem decide encarar transformar sonhos em realidade.
 
Direto do isolamento, Gustavo Teles, pai do Bento

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