Uma menina vinda de Marte

A menina aceitou aquele desafio no desajeito de sempre, sem saber dar resposta. Levaria para a escola o tal brinquedo que todos queriam, que muitos já possuíam, objeto de desejo de nove entre dez crianças de oito anos. Voltou para casa lamentando não ser como a maioria dos colegas, que já começava as aulas com mochila e uniforme novos, livros didáticos, caixas de lápis de cor, merendeiras coloridas.

Seus pais mal conseguiam manter as finanças domésticas em dia. Brinquedos só no Natal, quando muito. E era sempre penosamente que davam conta de quitar a imensa lista de material escolar de cada ano das duas filhas. Agora, metera-se naquilo. Os colegas ririam de sua tolice como se fosse mentirosa. Ao lado da mãe, descendo a ladeira íngreme em silêncio, pensava em um jeito de comprar o tal carrinho.

Ainda mais essa, um brinquedo de menino! Talvez se desejasse uma boneca, dessas que vive de olhos arregalados, a mãe até fizesse um sacrifício. Possuía um coração tão generoso. Costurava roupas na máquina madrugada adentro, ajudava o marido nas despesas. De vez em quando, sobravam uns trocados. Mas como explicar que havia dito aos colegas que possuía o tal carrinho e que duvidaram dela?

Por alguns dias, suportou todo tipo de zombaria na escola. Até que simplesmente deixou de ir ao recreio. Sozinha na sala, sob o olhar curioso da professora, arrumava o lanche na mesinha e comia: Ki-Suco de morango, pastel de carne. Rezava por dentro para que a aula acabasse. Diante de sua mãe, ninguém riria dela. Dois meses que buscava um modo de pedir que comprasse o tal brinquedo de menino e nada de coragem.

Deixa de esquisitice, talvez a mãe respondesse, dando o caso por encerrado. E olha que nem desejava tanto assim o tal brinquedo. Só falou que o possuía por absoluta estultice, falta de jeito de puxar assunto. Nunca soube se comunicar direito com nenhum deles. A menina vinda de Marte. Seu primeiro, seu eterno apelido. Enquanto se alongava, aquele impasse, foi inventando desculpas para faltar às aulas.

Tudo ia bem, em suas súbitas rinites, até que chegou a época das provas. Sem uma alternativa, procurou a mãe e implorou que lhe comprasse o carrinho, réplica de um Ford colorido que abria e fechava as portas. Não era Natal nem nada. E nem ela era um menino. Mesmo assim, as duas foram juntas ao supermercado.

Na seção de brinquedos, passaram direto pelas bonecas de olhos arregalados, em busca do carrinho colorido que, brilhando na caixa, custava mais que um dos livros pendentes na lista de material didático. A mãe olhou para ela e disse que o dinheiro só daria para comprar um fusca. As duas riram. No dia seguinte, na escola, foi um alvoroço e todos se sentiram enganados. Mas a menina já não se importava nem um pouco.

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