A imaginação é um caminho sem volta

Sem sair de casa há exatos 22 dias, lembro do primeiro período longo de distanciamento social que enfrentei na vida. Eu devia ter uns seis anos quando comecei a sentir os sintomas do que parecia ser apenas uma forte gripe. Meus pais me levaram ao médico, mas demorou bastante até aparecerem as manchas características no corpo e descobrirem que eu estava, na verdade, com sarampo.

O diagnóstico tardio complicou os sintomas de tal modo que me vi desenganada ainda na primeira infância. A recomendação do especialista era a internação imediata na ala de infectologia do Hospital Couto Maia, considerado àquela altura da doença o último recurso. Minha mãe, no entanto, decidiu contrariar todo mundo e assumir pessoalmente o tratamento, improvisando uma unidade doméstica de isolamento.

Meu pai administrava umas casas pequenas de aluguel, na Cidade Baixa, e numa delas, desocupada na época, a minha mãe instalou a nossa quarentena. Imagino quanta coragem ela precisou reunir para ir de encontro aos prognósticos sombrios de que, caso escapasse, eu ficaria com graves sequelas. Após uma promessa ao Senhor do Bonfim, passou a renovar diariamente a esperança de que eu ficaria curada.

Confesso que eu não entendia quase nada sobre a gravidade daquilo. Só estranhava que aquela gripe me separasse repentinamente das outras crianças, incluindo a minha irmã mais velha, que ficara com nosso pai numa casa próxima. Pelas frestas da janela de madeira, eu espiava o mundo lá fora. Os meninos jogando bola na vizinhança, as meninas desfilando com suas bonecas, que sempre achei tão feias.

Os meses passaram arrastados, entre banhos diários de folhas e de cânfora, até que os remédios caseiros e as preces de minha mãe foram surtindo efeito. Meus olhos tomados pelo sarampo começaram primeiro a se acostumar à luz elétrica, e a televisão virou meu parque de diversões. Guardo comigo ainda hoje o efeito azulado das imagem em P&B, projetando sombras nas paredes amarelas, os desenhos animados, as revistas em quadrinhos e as séries da TV aberta, inseparáveis companheiros.

Acho que aprendi a pensar, naquela casa pequena e parada no tempo, ser possível inventar passatempos mentais, improvisar brinquedos com qualquer objeto, conviver com personagens que não eram de carne e osso. Totalmente recuperada do sarampo, ao retomar o convívio com os outros, já não era mais a mesma criança. Havia descoberto a imaginação, e dentro de mim, um caminho sem volta.