Em mês de celebração da dança, artistas pensam soluções para crise

No mês em que se comemora a dança, artistas, produtores e profissionais da área tiveram de suspender a agenda repleta de eventos e atividades para preencher os dias buscando soluções que minimizassem os efeitos da pandemia sobre seus trabalhos.  “Essa é uma conversa ótima, precisamente nesse mês, que é quando o setor da dança tem realizado diversas ações em todo Brasil”, avalia Jorge Alencar, coreógrafo da Dimenti Produções. 

Ele considera que as preocupações do setor se dividem em três principais eixos: sobrevivência dos artistas e grupos, alternativas de criação expressiva nas artes em tempos de isolamento e, por fim, reorganização das experiências ao vivo quando estas já forem permitidas – incluindo a confecção de um calendário que dê conta do que foi suspenso e do que já estava agendado para os próximos meses. 

“Não há evidências de nossas participações em eventos que estavam agendados para abril vão ser mantidas, mesmo porque elas estavam ligados ao mês da dança. Naturalmente, o que não é tão natural assim, não houve nenhum repasse que asseguraria o pagamento dos artistas e da produção” – Jorge Alencar, corógrafo da Dimenti Produções Culturais

Sem nova data prevista, Festival Vivadança deve ser realizado ainda esse ano (Foto: Divulgação)

O Vivadança Festival Internacional, que chegaria à sua 14ª edição consecutiva no próximo dia 12, ainda deve ocorrer este ano, mas até o momento não há definição de novas datas. “A gente tem que ter paciência. Muita coisa vai ser descontinuada esse ano, mas isso não significa que elas não vão acontecer mais. A dança movimenta uma cadeia de produção imensa. O festival é fundamental para pensar isso. O momento é de se unir e pensar que tudo vai voltar em breve”, acredita Ana Camila, coordenadora de comunicação do festival que tem no Teatro Vila Velha seu principal palco.

Na semana passada, o encenador Marcio Meirelles, diretor artístico do teatro, publicou uma carta aberta em que reforçava a importância da campanha de financiamento coletivo, aberta em novembro do ano passado, para manter o Vila Velha em funcionamento pleno. Sem a renda que obtém com a bilheteria, oficinas, programas de formação e com o café do Cabaré dos Novos, o teatro não consegue pagar seus custos mensais. Na carta, Meirelles ainda alerta sobre a situação dos artistas, que mesmo criando alternativas cênicas em casa através da internet seguem sem nenhuma perspectiva de remuneração. 

Assim como outros setores da economia, todos os profissionais ouvidos pelo CORREIO lidam com muitas incertezas até então. Não há estimativas do impacto financeiro, nem se sabe até quando o efeito coronavírus será sentido. De acordo com pesquisadores, o pico da Covid-19 no Brasil acontecerá justamente entre abril e maio.

Espetáculo Essa Tempestade, do BTCA, será exibido na internet na próxima quarta-feira (8)

“Nesse momento, não temos como estar trabalhando e a maioria de nós está sem retorno financeiro, sem uma verba de manutenção e de sobrevivência. Não temos uma instância representativa, nem no município, nem no estado. O que temos é o Sindicato de Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões, que nos assegura o registro profissional, mas que não dá conta de todas as demandas e especificidades da nossa categoria”, explica a dançarina e pesquisadora Agatha Simas, diretora do NoixColetivo.

Na última semana, ela lançou junto ao grupo um formulário para mapear o quantitativo de profissionais atuantes na Bahia em 2020. “Queremos saber quantos e quem são as pessoas que sobrevivem da dança para que possamos acionar as entidades públicas e solicitar uma verba de manutenção”, afirma, ao lembrar que a demanda de organizar essas informações existe desde 2017 quando o coletivo foi criado. O cenário de uma crise ainda maior no setor catalisou a realização do levantamento. Até agora, cerca de 200 profissionais do estado, que já vinham se articulando em grupos de Whatsapp, responderam ao questionário. 

No caso do NoixColetivo, o mês de abril também era um dos mais promissores do ano. Eles haviam sido aprovados em um edital de mobilidade para a África do Sul, onde ficariam por cerca de 20 dias; tinham diversas apresentações fechadas em escolas públicas de Salvador, onde reafirmariam o lugar da dança negra na cultura e na economia; além de participações em palestras e eventos. “Fomos muito prejudicados por isso. É uma realidade que muda todo nosso percurso daqui até o final do ano. Teremos de repensar prazos, planejamentos e talvez percamos até algumas oportunidades mesmo”, lamenta Simas.

As comemorações ao vivo pelos 39 anos do Balé de Teatro Castro Alves, completados ontem, também foram adiadas. Uma forma que eles encontraram para que a data não passasse despercebida foi resgatar e exibir na internet coreografias e videodanças de seu vasto repertório, dentro da série #BTCAplay, nas redes sociais do BTCA, no Facebook e Instagram (@btca.oficial), sempre às quartas e sextas-feiras, das 10h à 0h. Até o fim do mês serão apresentados o espetáculo Essa Tempestade (2012), coreografia de Cláudio Bernardo, além de peças do projeto Endogenias (2016).

Nesta semana, a Dimenti Produções Culturais também exibe dois espetáculos na plataforma digital criada para a veiculação das artes cênicas baianas. Na sexta-feira (3) será exibido o solo Edital, de Fábio Osório Monteiro, e no domingo (5) será a vez do solo Um Corpo que Causa, de  Alencar. Os links com os registros em vídeo das peças ficarão disponíveis, em cada uma dessas datas, de 09h às 23h, na página do projeto Na Quarentena tem Teatro no Facebook.

Jorge Alencar participa do festival online Na Quarentena Tem Teatro com o solo Um Corpo Que Causa, no domingo (5)

A alternativa de exibir ou produzir espetáculos para a internet é uma das possibilidades que dançarinos e coreógrafos têm encontrado para dar vazão a processos criativos durante a quarentena. Nenhuma dessas ações, no entanto, foi monetizada devidamente. Para Jorge Alencar, é possível que novos formatos surjam daí, mas nenhum deles substituirá as experiências ao vivo. “A arte é uma necessidade evolutiva da humanidade. Desde sempre, viemos nos encontrando para compartilhar experiências artísticas presenciais. Agora, outras lógicas culturais e de mercado vão entrando em jogo, claro. Mas vejo as pessoas muito desejosas do encontro, e não acho que isso deva mudar”, comenta.

“O Vivadança tem muitas experiências de mediação em que o público muitas vezes está pela primeira vez em um teatro, em contato direto com o artista. Isso não pode ser substituído por uma live no Instagram. Eu acho que é o momento do público pensar em como os artistas trabalham, como funciona esse trabalho” – Ana Camila, coordenadora de comunicação do Vivadança