Empatia: homem distribui cadeiras para idosos e gestantes na fila da Caixa

Pilha de cadeiras é deixada nas agências para a disposição das pessoas

Depois de passar mais de oito horas em pé na fila da Caixa Econômica para sacar o auxílio emergencial, o que você faria em seguida? Iria às compras? Ficaria em isolamento dentro de casa? Tentaria economizar o dinheiro? Todas essas atitudes “comuns” foram rejeitadas pelo Microempreendedor Individual (MEI) Welington Gonçalves, 40 anos, que desde segunda-feira (4) distribui cadeiras para as pessoas que estão passando por situação parecida com a ele. A boa ação acontece em frente às agências da Calçada e de Paripe. 

Tudo isso movido é por um sentimento nobre: empatia. Assim como muitos baianos, Welington teve que encarar, no dia 30 de abril, uma longa fila para receber seu benefício. Sentiu na pele o que é ficar mais de oito horas em pé e teve compaixão dos idosos, gestantes e pessoas que têm problemas de saúde. “Tem gente aqui que ainda não comeu. Ter um lugar para sentar faz a diferença para as pessoas. Ajuda a suportar a fila”, disse. 

Como mora sozinho, o rapaz reservou parte do seu benefício para comprar mantimentos pessoais e outra parte para colocar óleo diesel no seu carreto, que usa para transportar as cadeiras da sua casa, no bairro do Rio Sena, para as agências. Ele relata que já gastou R$ 270 de combustível.  

Welington Gonçalves posa com pilha de cadeiras antes de distribuir para as pessoas 
(Foto: Daniel Aloisio/CORREIO)

“Faço duas viagens de manhã para levar as cadeiras e organizar a entrega e mais duas, pela tarde, para pegá-las. O que mais gasta é a viagem até a Calçada, que é a mais longe de casa”, relatou.  

Wellington não possui um funcionário ou alguém que o ajude. Sozinho, ele carrega e descarrega a carreta com as 300 cadeiras. A primeira agência que ele vai é a de Paripe, por volta das 7h. Faz a distribuição, priorizando o grupo preferencial, e pede para as pessoas cuidarem do assento enquanto ele vai na outra agência fazer o mesmo processo.  

Mesmo com a atitude nobre, o rapaz relata que já perdeu pelo menos 11 cadeiras – sete foram furtadas e quatro danificadas. “Eu coloco bem destacada na cadeira a minha marcação, para que as pessoas saibam que ela me pertence, mas isso não intimida alguns”, disse.  

Uma perna da cadeira distribuida por Wellington foi quebrada 
(Foto: Daniel Aloisio/CORREIO)

Essa realidade não desanima o rapaz. Ele afirmou que vai continuar fazendo a boa ação até quando for necessário. “Sei que era para eu estar em casa por causa do distanciamento social, mas era também para as pessoas não precisarem vir para a rua, encarar essa fila. Vejo mais o lado do próximo do que o meu e entrego tudo nas mãos de Deus”, disse. 

Wellington trabalha na área de eventos, alugando cadeiras, há mais de 10 anos. Ele afirma que, depois que começou a atuar na área, suas condições financeiras melhoraram, o que permite que ele tenha esse gasto extra para ajudar as pessoas.  

“Eu fui uma criança que passei dificuldades. Por isso, prometi que iria ajudar as pessoas quando tivesse condições melhores. Tenho um trabalho de entregar brinquedos no meu bairro há mais de 15 anos, no Natal. E olha que não tenho o intuito de ser político, embora já tenha sido chamado”, diz, com um sorriso no rosto. 

Ajuda
“Quanto custa o aluguel dessa cadeira?”. Essa foi a pergunta que a idosa Anadia Inez, 64 anos, fez quando recebeu o material. “A gente já está tão acostuma a pagar por tudo, meu filho, que ficamos surpresos com uma atitude dessa”, disse. Anadia já sofreu dois Acidentes Vascular Cerebrais (AVCs) e o assento a ajudou a encarar a fila. “É uma linda atitude, pois nesses momentos precisamos mais ainda um do outro”, expressou.  

Sentada, Anadia Inez encarou a fila mais tranquilamente (Foto: Daniel Aloisio/CORREIO)

Delza Souza, de 52 anos, que tem problemas respiratórios, também ficou contente com a ação. “Quando a gente vê pessoas vendendo lugar na fila por até R$ 80 e fazemos a comparação com esse senhor, que não está ganhando nada pela sua atitude, percebemos que ainda existem pessoas boas no mundo”, disse.  

As duas senhoras estavam na agência de Paripe, onde o CORREIO esteve na manhã dessa quarta-feira (6). Segundo o funcionário da Caixa que organizava a fila e que preferiu não se identificar, hoje foi o dia de menor movimento desde a liberação do saque.  

“Hoje nós só temos remanescentes, pois muitas pessoas já sacaram. A tendência, portanto, é de melhorar mais ainda nos próximos dias”, disse ele, que também ajudava Wellington na distribuição e organização das cadeiras no espaço.   

A fila na agência de Periperi foi menor nessa quarta-feira (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

“Essa fila chegou a dar duas voltas na Praça da Revolução. Hoje está bem mais tranquilo”, disse Carmen Morentino, 43 anos, que ficou aguardando o dia de menor movimentação para encarar a espera. “Eu vim na segunda-feira, mas quando cheguei, não tive coragem de ficar. Hoje eu vim aventurando, mas se estivesse cheia novamente, ia voltar”, disse. 

Carmen é outra pessoa que ficou receosa de usar a cadeira, pois achava que ela estava sendo alugada. Mesmo assim, a desempregada nem aproveitou muito do assento, pois só ficou 30 minutos na fila. “Graças a Deus, consegui resolver meu problema e sacar o auxílio. Se eu tivesse filhos, viria antes e iria encarar a maratona. Mas como moro sozinha, preferi controlar os gastos pessoais para vir sacar o auxílio no momento certo”, afirmou.  

O CORREIO pediu a Wellington um contato, para quem tiver interesse em ajudá-lo com doações, para que possa seguir auxiliando quem precisa. Quem quiser ajudar, pode entrar em contato pelo número: (71) 98638-4638. 

* Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro.