Paulinho Boca de Cantor: “A história é de todos e não pode parar aqui”

Paulinho Boca de Cantor prepara seu primeiro álbum autoral

Em entrevista exclusiva ao CORREIO, o cantor e compositor Paulinho Boca de Cantor confessa, emocionado,  que  a  ficha ainda não caiu  sobre a morte de Moraes Moreira no último dia 13: “ O telefone toca e eu ainda acho que é ele, pois nos falávamos várias vezes, todos os dias”, diz Boca, que na conversa fala sobre o destino do grupo Novos Baianos, das homenagens que serão prestadas a Moraes,  incluindo o Carnaval de Salvador, da realização dos shows que já estavam agendados com o grupo, além de falar de seus novo projetos solo. Paulinho relembrou, ainda,  os grandes momentos que viveu ao lado de  Moraes e garante que ele será sempre lembrado pelo seu belo trabalho.

 A pergunta que todos querem fazer: Como será os novos Baianos sem a presença de Moraes Moreira?

Nós também queremos saber como vai ficar a nossa vida e a vida do Novos Baianos sem a presença do Moraes Moreira. Sinceramente, ainda estamos muito abalados e às vezes sem acreditar. A lembrança é ainda muito forte e somente com o tempo para nos acostumarmos com a ideia de que ele não mais estará conosco nos palcos da vida. Mas seguimos vivendo e o Novos Baianos não nos pertence, fizemos história e a história é de todos e não pode parar aqui.  E quem nos segue sabe que em 1975, quando Moraes saiu do grupo, continuamos a nos apresentar sem ele, fizemos muitos shows, alguns discos, mas claro que agora é diferente, não foi ele quem quis sair, muito pelo contrário, tínhamos muitos planos e estávamos muito felizes juntos. 

Você, Baby, Pepeu e Galvão planejam algum disco/show em homenagem à memoria de Moraes?

Sim. Temos contratos a cumprir e estamos estudando, junto aos contratantes, a melhor maneira de cumprirmos. Alguns shows que estavam agendados foram adiados por conta da pandemia, mas nenhum foi cancelado. E uma coisa já decidimos: em todos os shows vamos fazer um grande tributo e homenagens ao nosso Moraes. Ele vai estar sempre conosco nos shows e em todos os momentos de Novos Baianos. Entre os compromissos agendados: show no Festival Coala em SP, Show na Virada Cultural SP, show no Festival Tropical em Salvador e outros shows corporativos para um banco e uma montadora de veículos. Além disso, temos um contrato assinado com a Som Livre para mais um disco de inéditas e outro contrato, também assinado, para fazermos o Projeto Replay, um especial de TV, idealizado pelo empresário Fabiano Farah, que consiste em trazer novos talentos da MPB interpretando as músicas do Acabou Chorare. Estou aguardando passar esse tempo louco, para ir até o Rio de Janeiro me reunir com Pepeu, Baby e o Galvão para acertarmos os detalhes da sequência do trabalho.

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Paulinho, Pepeu, Moraes, Galvão e Baby: Os Novos Baianos  em foto dos anos 80, num dos reencontros da banda (Foto: Divulgação)

Como vocês receberam a noticia da provável homenagem a Moraes Moreira no carnaval de 2021?

É bom você perguntar isso porque tenho certeza que ele ia gostar muito dessa homenagem. Tenho lido as pessoas postarem nas redes que deviam fazer com ele em vida, que ele não era tratado como devia no Carnaval. Tudo bem, também concordo com essas opiniões, mas eu vivo Carnaval há 44 anos e o Moraes também viveu esse tempo todo fazendo a festa e sempre foi difícil para todos os artistas independentes, que fazem a festa para o folião pipoca. Mas isso é outra história e não é sobre isso que devemos falar agora. Por isso mesmo estou muito feliz e tenho certeza que os baianos que adoram suas músicas, sabem que homenagem como essa vai perpetuar o nome do Moraes para sempre, não só no carnaval, mas no coração de todos os baianos E isso é o mais importante.

Qual foi o impacto para você assim que soube da morte de Moraes, já que vocês eram amigos há mais de 40 anos e mantinham uma relação fraterna mesmo quando houve a separação?

Fiquei alguns dias sem conseguir falar com ninguém, sem acreditar. O telefone toca e eu ainda acho que é ele, pois nos falávamos várias vezes, todos os dias. Faz uma falta enorme, nossos papos, nossas risadas.  Juntos há 50 anos. Mais precisamente 52, quando nos conhecemos na casa do Tuzé de Abreu e eu, Moraes e Galvão não nos separamos mais. Destino traçado, não tínhamos como fugir e aí fundamos o Novos Baianos. Imagine a falta que um amigo, um irmão com quem você inventou junto uma nova família, vai fazer. Mas nada pode separar sentimentos verdadeiros. Um laço forte, uma cumplicidade e planos sem fim. Por enquanto estamos nos despedindo fisicamente, mas tenho certeza que essa dor tem uma direção e quando ficar clara essa direção é só seguir. De uma coisa temos mais que certeza, pois aprendemos juntos: “a consciência é indestrutível”. TMJ

Você acha que o trabalho dos Novos Baianos e de Moraes Moreira, em especial, tem o merecido reconhecimento pela importância comprovada na história da música brasileira?

Acho que o carinho do povo nos faz esquecer o tratamento, muitas vezes ingrato, que artistas que têm um trabalho mais elaborado sofrem em todos os sentidos, no Brasil. Mas ver nossas músicas cantadas, lembradas há tanto tempo e imortalizadas, recebermos prêmios e elogios de todos, quase que uma unanimidade, e constatarmos que um público jovem, que nem pensava em nascer quando nós começamos, hoje lota os shows, isso nos dá a confiança para seguirmos e a certeza que o trabalho fez e continua fazendo história. E isso é reconhecimento. O Moraes inclusive é um compositor que não só no Novos Baianos, mas também na sua carreira solo, popularizou poesias maravilhosas, no Carnaval e em outros  momentos, se eternizando na MPB. E o Brasil sentiu muito sua partida, prova de que é muito amado e teve seu talento e sua importância reconhecidos.

 Independente do trabalho com os Novos Baianos você desenvolveu uma carreira solo lançando discos e criando projetos. O que Paulinho Boca de Cantor está planejando?

No momento estou finalizando o meu primeiro disco autoral. O disco se chama Além da Boca, está sendo dirigido pelo meu Filho Betão Aguiar. São composições de minha autoria e outras que divido com parceiros como Zeca Baleiro, Zélia Duncan, Galvão e outros.  Tem também a participação de vários amigos da música- o próprio Zeca Baleiro, com quem divido a música Ah! Eugênio, os garotos do Terno, a Anelys Assumpção e outras que ainda não posso revelar. Além de músicos que participaram da gravação como Curumin, Manoel Cordeiro, Edgar Scandurra, Saulo Duarte, Betão Aguiar e muitos outros maravilhosos colegas que fizeram questão de participar. Estou muito feliz com o resultado e logo vocês vão poder ouvir. Prometo que assim que sair lhe conto tudo.

Sua ligação com os festejos juninos sempre foi marcante, tanto assim que nesse período do ano quando se comemora  o São João e São Pedro você mantem uma agenda cheia. Como você viu o cancelamentos das festas juninas?

Uma pena que essa pandemia além de tirar vidas,  parar o mundo, tenha conseguido tirar a alegria que as festas  juninas trazem para o povo, sobretudo o povo do interior, que tem nessas festas uma garantia de melhorar sua  dura sobrevivência. Mas com fé em Deus esse tempo louco logo passa, “o sol há de brilhar mais uma vez” e vamos voltar a fazer as festas para a alegria de todos.

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Moraes Moreira e Paulinho Boca de Cantor no ano passado, no Festival da Primavera: parceria de 52 anos (Foto: Marna Silva/Arquivo CORREIO)

Mesmo participando de um grupo famoso, você sempre foi discreto em sua vida pessoal. Todos conhecem os filhos de Moraes, Pepeu e Baby que seguiram o rumo dos pais. E Paulinho Boca de Cantor. Quem é o artista na intimidade?

Adoro a vida, vivo intensamente cada minuto, tenho muitos amigos verdadeiros. Tenho uma família maravilhosa e numerosa. Tenho uma esposa com quem namoro há 30 anos, a Vika (Virginia Amaral). Tenho três filhos, que só me dão orgulho e felicidade, fruto do meu primeiro casamento com a Marilinha (Marilia Aguiar).  O Betão Aguiar que é músico – toca baixo, guitarra, produz discos e é produtor cultural, tem feito projetos de resgate de manifestações culturais populares em extinção – um trabalho muito elogiado pela importância desses resgates para nossa cultura -, e também toca om Arnaldo Antunes, com Felipe Cordeiro, comigo e com muitos outros artistas, além de ter músicas gravadas por vários artistas também. Mora em São Paulo, mas vive também no seu sitio em São Luiz do Paraitinga, interior de São Paulo.  O outro filho, Gil Oliveira – baterista, percussionista, mora nos Estados Unidos e toca com muita gente por lá, e participou dos shows de Novos Baianos nessa volta em 2016, inclusive gravou no DVD do grupo. E a minha filha, o xodó do papai, a Maria Meneghini, minha Buchinha, que eu adoro, é advogada, trabalha no Ministério Público do Rio de Janeiro, onde vive. Tenho dois netos maravilhosos: o Matheus, filho da Maria, que vive no Rio e já tem 28 anos, e o Omar, que é filho do Gil e mora em Barcelona, tem 14 anos. E temos outro neto, filho de uma sobrinha da Virginia, que ganhamos e adotamos, um presente de Deus, o Miguel, que hoje mora na Espanha, e veio ficar conosco quando ainda tinha dias de nascido, portanto somos o vovô Paulinho e a vovó Vika. Família baiana de muitos irmãos, alguns já se foram, muitos sobrinhos e sobrinhos netos, família muito unida e sempre presente. Como podem se ver numa pesquisa, ficou provado que o maior motivo para ser feliz é a quantidade de gente que se importa com você e com quem você se importa também, sou muito feliz e agradeço a Deus todos os dias.

Com essa quarentena forçada pela pandemia do novo coronavirus, você pensa em fazer uma live?

Participei de um encontro mundial de artes pela internet e até prestei uma homenagem ao Moraes Moreira, cantando Preta Pretinha. Tenho recebido muitos convites para participar de lives  com colegas e penso em participar e fazer algumas sim. Mas, sinceramente, estou focado em gravar minha história, o que tem tomado o meu tempo e me dado muito prazer. Lembrar da minha trajetória desde minha infância em Santa Inês, minha adolescência em Amargosa e Salvador, meu tempo de crooner de orquestra, o início de Novos Baianos, do tempo que vivi em Nova York, são tantas histórias e estou aproveitando essa quarentena forçada para contar e registrar tudo.

Passada toda essa turbulência, em sua opinião o que será da MPB e seus artistas? Haverá uma nova forma de relacionamento?

A MPB estará sempre presente em nossas vidas, é uma arte singular e que o mundo todo admira. Portanto se nos orgulha, temos que procurar preservá-la e dar continuidade a nossa valiosa tradição musical.   Espero que o mundo mude depois dessa loucura, que nos deixou assustados, e que possamos compreender de vez o quanto todos são importantes em nossas vidas. Esquecer a vaidade e o orgulho, lembrar que só o amor resolve, que somos todos irmãos e assim continuarmos com a nossa missão de levar alegria e esperança através da música. Que assim seja para sempre. Amém!!