Viva a ressurreição. Viva a fé. Viva a Páscoa!

A casa onde passei os primeiros 15 anos da minha vida era praticamente um terreiro de umbanda. Minha avó era uma ialorixá respeitada na cidade. E eu não fazia ideia do que isso significava. Mas tinha certa consciência porque via coisas diferentes acontecendo em casa. Na Semana Santa, por exemplo, pessoas diferentes ficavam dias em casa “incorporadas” por diferentes tipos de personalidades. Era assustador. Não havia explicação sobre aquilo. Eram as minhas ideias e percepções. Uma vez, uma criança chegou amarrada, misturando vozes de adultos nervosos. Foi submetida a um tratamento especial, com rezas feitas por minha avó. O tempo trouxe costume e tudo ficou familiar.

Sempre fui cismado com o fato de pessoas, em sua limitação humana, terem a aspiração de conseguirem tocar o mundo espiritual através de seus limitados esforços pessoais. Quiçá tocar a Deus. Fico sempre me perguntando se Deus é um ser suscetível pelo tamanho do meu esforço em conseguir manifestar minhas intenções através de atitudes, cânticos e pensamentos. Será mesmo que consigo mudar o destino ou aquilo que Deus já planejou para mim ou para alguém pela quantidade de vezes ou forma que falo com Ele? Será mesmo que consigo mudar o rumo da vida de alguém pelos sacrifícios materiais que faço “espiritualmente”? Encruzilhadas, campanhas de oração ou rezas feitas repetidas vezes exatamente da mesma forma podem provocar um cataclisma espiritual-material a ponto de alterar o rumo da vida humana? Eu entendo que tudo isso entra em um lugar de entendimento e discussão chamado de FÉ. E é sobre fé que precisamos refletir neste domingo de Páscoa.

A fé é a certeza de coisas que não vemos. É trazer para a existência realidades espirituais. Independentemente da linha religiosa, o conceito é convergente para a grande maioria. Uma pessoa de fé é aquele tipo que no meio de um temporal consegue manter mente e coração convictos que logo menos o sol há de brilhar e todo o infortúnio da tempestade será um traço grosso na memória. Mesmo que a tempestade custe um isolamento de meses dentro de casa. Ainda que custe a saúde econômica do mundo inteiro. Fé não é pensar positivo. Se tratarmos a fé como algo ligado ao positivismo, voltamos à limitada condição de nossos esforços para que tudo se resolva no final. Pensar positivo pode até afagar nossa mente e ansiedade. Mas a fé vai além de um esforço mental humano. É trazer à existência um mundo que não conseguimos enxergar com olhos materiais. Ter fé é reconhecer que, por mais que sejamos absurdamente habilidosos, inteligentes e bem conectados, o mundo não pode ser controlado por braços fortes.

O indivíduo que busca ter fé precisa compreender que o caminho é uma via de renúncia do aplauso para si. A partir do momento que você admite caminhar por uma jornada de fé, você entrega o prêmio do êxito para um outro ser. Ter fé é ser livre do ego. E por que não dizer que aquele que tem fé é um ser livre? É olhar para a pandemia destruindo a estabilidade que tanto acreditávamos que seríamos competentes em manter e continuar convicto que o melhor para todos acontecerá.

Criar um filho, pelo menos pra mim, é o exercício de fé mais difícil da vida. Por mais que eu leia, estude, tome ansiolíticos, busque orientação de amigos-pais experientes, eu não sei o que vai acontecer no final. Talvez você que me acompanha aqui tenha a resposta, mas eu não tenho. E particularmente, não acredito que terei até o fim dos meus dias na Terra. Por mais diligente, amoroso e instruído que eu seja como pai, nada disso dará garantia que meu filho realmente vai ser o que precisa ser neste mundo. Veja bem, estou aqui escrevendo sobre fé, que está ligada diretamente a coisas que acontecerão no futuro, e me pego tropeçando nos pensamentos tentadores de manipular o amanhã. Quem garante que a semente que você planta na terra do quintal vai se transformar num jardim vistoso e frutífero? Temos controle?

Este é um final de semana santo. A mensagem é a ressurreição. Mas afinal, você sabe do que se trata tudo isso? Pra que haja ressurreição é necessário morte. E a morte nada mais é do que o fim do jogo. É quando tudo aquilo que pensávamos ser possível cai por terra. A morte é a batalha que não se vence. É o ponto final da história que acreditávamos ser os autores. Jamais os co-autores. Passamos a vida inteira vencendo batalhas diárias. Emocionais, financeiras, profissionais e relacionais. Até que chega uma daquelas que não seremos capazes de vencer. O invisível vencerá. Fatores impossíveis para nossa compreensão e visão vão nos tirar o fôlego da vida. A morte é o atestado da incapacidade em alterar humanamente aquilo que o mundo invisível determina. É aqui que a fé encontra seu lugar. Ela não é um adereço para ser usado em momentos difíceis. A fé é a armadura que devemos usar para viver a paz neste mundo em guerra. Só com fé conseguiremos viver a paz.

Hoje é Páscoa. Não sei em que lugar você está na sua jornada espiritual-material. Nos tempos de agora, é preciso compreender que invisível e material são mundos completamente interdependentes. Tudo que você acreditava sobre você mesmo e sua força humana está ruindo? Você sente que a morte bate à porta? Olhe para o caminho da ressurreição. No contexto cristão, a graça divina só se fez presente na Terra após a morte de Jesus. E graça nada mais é do que o favor imerecido de Deus pela humanidade. Eu não sei você, mas eu preciso de fé. Mas muito mais, preciso aprender o que é a graça de Deus. E só com a lição apreendida posso me sentir forte para ultrapassar a nuvem de morte e pavor e ser nada menos do que um pai, marido, amigo, empresário e cidadão cheio de graça.

Desejo graça para amenizar a pressão que a pandemia exerce sobre você. Não resista à morte da arrogância, prepotência, egoísmo, avareza, ressentimento, ódio e tudo mais de mal que somos capazes de hospedar neste corpo e alma perecíveis. Viva a ressurreição. Viva a fé. Viva a Páscoa!

Confinado há 4 semanas, Gustavo Teles.